Quinta-feira, 9 de Julho de 2009

O mais Velho Jonas, era um homem magro, alto, carapinha toda branca, de olhar penetrante, ainda com uma dentadura alva, pois continuava a lavar os seus dentes com o seu pau esfiado e carvão bem moído, como antigamente, e ainda utilizava a sua raspadeira de alumínio, que já vinha de longe, para raspar a língua. Sempre de casaco e gravata, bom na escrita e na fala, pois era descendente de ambaquistas, da região do Lucala, homens que serviam de secretários aos sobas e reis da região, escrevendo e enviando mukandas, às autoridades coloniais sobre pedidos
e assuntos judiciais. Vestiam-se à europeia e não eram muito bem vistos pelos portugueses, pois falavam o português correctamente e muito melhor que a maioria deles, era um português erudito, aquele que eles falavam, com muitos vocábulos jurídicos e latinizados.
Ele mesmo fazia o seu matabicho, pão com manteiga e uma chávena de café, batizado co um pouco de aguardente, que o seu vizinho branco lhe tinha oferecido. Punha o seu fato preto, com a camisa branca e gravata às cores e lá ia passear pela Igreja do Carmo, descia até à Marginal. Para o mais Velho, as suas saídas eram sempre um dia de Sol, quando se sentava num banco de pedra a ver o mar, mesmo que fosse kasimbu. Depois subia a calçada para casa, passava novamente em frente à Igreja, benzia-se, cumprimentava o branco da loja dos colchões e entrava em casa, no bairro da Ingombota.
O seu vizinho branco, que andava perto dos sessenta anos, que como quase todos os brancos ricos, tinha barriga grande, muitas vezes lhe perguntava, como fazia ele para estar com oitenta anos e ainda em forma, já que era caso raro um angolano chegar a tal idade, ainda mais com todas as dificuldades que agora atravessa. O mais Velho Jonas, respondeu-lhe, que descansa muito. Disse que uma vez, leu uma crónica de um humorista brasileiro, que dizia"o exercício físico é o primeiro passo para a morte" e deu como exemplo o famoso Dorival Caymmi, letrista, compositor e cantor baiano, conhecido como o pai da preguiça, tendo vivido noventa anos.
Usava óculos mas só para ver ao perto, lia muito, nestes últimos tempos, lia mais o Pepetela, escritor que fala da nossa terra, sem grandes rasgos de intelectualidade, escrita acessível a qualquer angolano, leu uns livros do Agualusa, mas dede que ele disse que o pai da nossa Nação, era um poeta medíocre, nunca mais quis nada com as leituras desse escritor.
Detestava ler coisas de frases feitas com laivos de sabedoria e muitas citações de escritores e personagens de quem nunca tinha ouvido falar, que ele considerava ser só para se darem ares de grandes intelectuais. Apesar de não ter computador, sabia que muitas dessas menções nos livros, eram tiradas de sítios da Internet e que, rapidamente, com isso viravam eruditos.

Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

Exatamente um ano atrás, no dia 08 de julho...

"Aqui tem cacimbo quente", primeira frase lida em Luanda

... eu recebia a notícia de que iria embarcar para Luanda no dia seguinte;

... eu tentava fechar as minhas três malas e levar nelas o suficiente para começar uma nova vida;

... eu encerrava o desmonte de um apartamento em menos de uma semana e não fazia a menor idéia de onde iria morar - até chegar a uma guest-house no Município das Ingombotas;

... eu deixava para trás uma vida oito anos de trabalho, amores e amizades numa das maiores cidades do mundo para viver em Luanda;

... eu deixava escorrer uma lágrima solitária na cabeceira da pista de Congonhas por São Paulo, com medo de nunca mais voltar a morar na terra da Garoa;

... eu constatava que o aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, é um ensaio primeiro de paciência para Luanda, com sua escadas rolantes e elevadores todos quebrados;

... eu atravessava o Atlântico ao lado de uma simpática angolana, que me deixou a par de muitas coisas, inclusive o que se passava no folclórico voo da Taag;

... eu conhecia Filomena, esposa do escritor Pepetela, que me disse "vais conhecer um pouco da nossa bagunça";

... eu avistava as luzes da Ilha de Luanda, muito pálidas em meio ao céu de cacimbo, por volta das 05  da manhã, antes de aterrissar no aeroporto 4 de Fevereiro; e não fazia ideia de que naquela língua de terra acontece tanta coisa boa...

... eu não acreditava que realmente estivesse na África, do outro lado do mar;

... eu era abandonado num saguão de aeroporto com uma bagagem de mais de 70 quilos por mais de cinco horas, morto de sono, cambaleante, podre de cansaço;

... eu lia a expressão "Aqui tem cacimbo quente" numa publicidade pregada na porta do quarto que me foi dado para dormir, e pela primeira vez percebi que não entendia o que estava escrito na minha própria língua;

... eu começava uma nova vida que só durou seis meses, tempo que passou numa intensidade de 24 horas, as mesmas vividas no distante 08 de julho de 2008 e hoje relembradas com saudades.

Domingo, 5 de Julho de 2009

Angola na FIA e CAN2010


Terminou hoje – domingo, 5 de Julho - a Feira internacional do artesanato - FIA2009.

A visita vale sempre pelo prazer da descoberta de peculiaridades na diversidade das manifestações culturais de diversas regiões do mundo que aqui se fazem representar. Cores, músicas, cheiros, sabores e diferentes falas deixam também no ar indícios de diferentes identidades.


De Angola, poucas noticias a registar. Uma amálgama de produções estilizadas reunidas num espaço sem interlocutor marcava a primazia do famoso pau preto na produção de estátuas e máscaras. Senti no ar a intenção primeira de procurar satisfazer a demanda pela estética exótica, esse mundo procurado por alguns turistas. É legítimo para os artesãos.




Já a África do Sul, num espaço vestido com trabalhos têxteis manufacturados lindíssimos, produções em cerâmica, madeira, arame e muita missanga colorida, deu-se a conhecer de uma forma simples mas interessante. A condizer com a decoração do espaço, havia a simpatia de mulheres sul africanas que atendiam todos os visitantes quase cantando preços em inglês. Num sotaque muito próprio daquela região africana.

À disposição de todos, foi colocado um pequeno Guia de Viagem, a pensar no Mundial de 2010.




Informações essenciais para quem quiser viajar para esta Nação Arco-íris, como foi chamada por Desmond Tutu, e oferta de um mini roteiro turístico sobre as cidades que vão receber os adeptos do futebol.

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

Que venha a Copa de 2010 e de 2014

Os africanos de todos os 52 países já sabem: a Copa do Mundo de 2010 vai ser mesmo do Brasil, como foi a Copa das Confederações, vencida pela terceira vez ontem pelos "Canarinhos" (Hellô, locutores portugueses, essa expressão "Canarinho" é totally anos 70, ninguém usa mais por aqui há 20 anos!!!) em Joanesburgo, na África do Sul.

Em Angola, vai rolar o Cocan 2010 - eu já tenho um palpite: "Egypto" na cabeça. Vocês viram que "equipa"? Camarões ainda assusta, mas o Egito está com tudo.

A minha cidade está se preparando para sediar os jogos de 2014 - provavelmente receberemos muitas seleções africanas aqui até as Oitavas de Final -, noutra Copa do Mundo na qual o Brasil vai ganhar e não teremos mais espaço no escudo para bordar mais duas estrelas, além das cinco que já ostentamos com exclusividade ao redor do mundo no nosso "lábaro estrelado".

Os argentinos, que perdem o amigo e não perdem a piada, publicaram essa capa sensacional hoje, onde pedem "ayuda" aos céus quando forem nos enfrentar nas Eliminatórias rumo à África do Sul 2010 (clique para aumentar a imagem e ler o texto precioso).

Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Um país pode ser traduzido numa letra de música?

Matias Damásio, em clique exclusivo da equipa JE para a Casa de Luanda

Toda a gente conhece essa figura da foto acima: Matias Damásio, autor de diversos sucessos. O mundo veio abaixo no final do ano passado quando ele lançou "Eu sou a Outra", uma ode às puladas de cerca (quem nunca pulou?), ouvida e cantarolada a plenos pulmões por nós nas tardes inteiras que perdíamos no engarrafamento indo para o trabalho, no rádio do carro.

Outra música dele que me lembra muito, mas muito, as curvas do Kinaxixi, das Ingombotas, da Maianga, do Prenda, da Rey Katyavala, da Samba, da Ilha e de tantos flashes que ainda me chegam desse país distante é esta, cuja letra transcrevo abaixo. Quem nunca ouviu não faz idéia da beleza desse hino-país. Seria o equivalente ao "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso? Seria, sem sombra de dúvidas.

Dica do PC, vulgo Magrelo.

ANGOLA (PAÍS NOVO)
Letra e Música: Matias Damásio

Vou contar-vos a história de um povo
Que tem tudo para sorrir de novo
Vou falar-vos da velha coragem
Sacrifícios e muitas viagens

Vou falar do soldado tombado
Anulando o sorriso rasgado
Do Kandengue que sofreu calado
E do povo que estava cansado

Vou falar desta terra de glórias
Nossa Angola de muitas memórias
Vou falar de um povo que quis
Finalmente agora feliz

Vou mostrar-vos uma nova terra
Agora sem guerra
Angola, do meu coração

Mangolé não se deixa
Não vacila a hora é essa
Dá-me a tua mão

Para junto comigo bombar
Nossa Angola juntos levantar
Angola, do meu coração

Vou falar do artista sofrido
Que pintou 30 anos de guerra
finalmente hoje tem a honra
De pintar anos brancos de paz

Vou falar deste crack Montorras
Dos goloços nosso Akua
Mano brincadeira tem hora
Paz e alegria aqui mora

Vou falar pra você que emigrou
Na esperança de vida melhor
Olha que nosso povo te espera, ai nosso povo te espera
Vou falar do meu povo de novo
Sem esquecer no crack Sayovo
Vou falar-vos dos palancas negras
Os donos do meu coração

Vou falar do pula que ficou
No gingado desta negra Angolana
Para Europa nunca mais vazou
Com a garina do Marçal ficou

Vou mostrar-vos uma nova terra
Agora sem guerra
Angola, do meu coração

Mangolé não se deixa
Não vacila a hora é essa
Dá-me a tua mão

Para junto comigo bombar
Nossa Angola juntos levantar
Angola, do meu coração

Domingo, 28 de Junho de 2009

Luanda, a partir de Barroco Tropical



Com Agualusa (re)visitei e pensei Luanda, neste últimos dias.
Num primeiro momento, foi assim.


15 – São Paulo da Assunção de Luanda
Quando eu nasci, Luanda ainda usava todo o seu belo e sonoro nome cristão: São Paulo da Assunção de Luanda. Velha matrona mulata, orgulhava-se do parentesco com cidades como Havana, Saint-Louis, em Casamance ou São Sebastião do Rio de Janeiro. Foram os brasileiros, aliás, que vieram em seu socorro quando, em 1641, os holandeses aproveitaram a distracção ibérica para ocupar a Fortaleza de São Miguel. VI a minha cidade tornar-se africana. (…)p.92*

Pousei o livro. Deixei-me partir do Porto de Luanda até à Ilha. Descansei alguns momentos num banco da marginal. Recordei a avenida. Hoje com calçadão. Outras presenças. Outras falas. Paisagens distintas da Luanda de antigamente, claro. História de um país. Angola em construção. Outras estórias. Sinais de Vida(s). O mesmo feitiço de sempre. Sorri.
Fui ao Baleizão antes de subir rumo à Fortaleza. A de S. Miguel. Canjonjei cada bocadinho daquela cassata que me satisfez outrora alguns desejos. Porque era o velho Baleizão. Ainda.
Olhei a Fortaleza que conheci menina. Museu das Forças Armadas que me apresentaram já mulher. Entre ameias e outros espaços, outros retratos. Mas sempre a beleza daquela paisagem: a Baía de Luanda e a Ilha do Cabo. Vistas de dia. Ao entardecer. De noite. Visitas feitas sempre com prazer.

Luanda corre a toda a velocidade em direcção ao Grande Desastre. Oito milhões de pessoas aos uivos, aos choros e às gargalhadas. Uma festa. Uma tragédia. Tudo o que pode acontecer, acontece aqui. O que não pode acontecer, acontece igualmente. (…) p. 93*

Este é um romance que não está colado à realidade, segundo o seu autor. No entanto, a sua obra conseguiu levar-me a pensar quantas realidades Luanda tem. Ou pode ter. Ou poderá vir a ter. Num Futuro Imperfeito. Será? Perco-me, por vezes, nos modos. Dos verbos, claro. A minha professora da 4ª classe dizia que só o Futuro Perfeito do Indicativo permitia indicar algo que se podia fazer com toda a certeza amanhã. Era quase como anunciar certezas grávidas de dúvidas, reconheço hoje. Como se o amanhã fosse um único possível. Ao Imperfeito, só atribuía a capacidade de indicar uma mera possibilidade ou eventualidade. Pois acho que este Imperfeito é o que nos ajuda a imaginar a pluralidade de realidades que podem chegar num qualquer amanhã. Eventualidades e outros factores podem conjugar-se e transformar ou até fazer nascer outras possibilidades. E o amanhã não será questionável, em certa medida? O Futuro e o amanhã. Até o de uma Luanda já contada em 2020, neste Barroco Tropical. Uma simples opinião.

A tarde declinava. Em Luanda não há hora mais bela. A luz é tão doce que mesmo atropelada nas ruas pelo furor do trânsito consegue por instantes salvar a cidade do desespero. (…)p.298*

Quase no fim, encontrei a luz. Vejo o pôr do sol. Lá. Além-mar. Dos mais bonitos, sim. E dou comigo a encerrar esta obra com a maciez de uma luz de Luanda que permite pensar o futuro. Porque futuro Luanda tem. Isso tem.

*Excertos do último romance de J.E. Agualusa.

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

Tudo ao pormenor sobre a Gala da Beneficência

Danilo dos Santos, Grazi Massafera, Cauã Reymond, Joseana dos Santos e a primeira-dama Ana Paula dos Santos

O próximo ‘Revista África’ levará aos assinantes da TV Globo Internacional todos os detalhes da 3ª edição da Gala Internacional de Beneficência, realizada no ultimo dia 19, em Luanda. A equipe do programa esteve presente e fez a cobertura completa do jantar anual, organizado pelo Fundo de Solidariedade Social LWINI, com o objetivo de arrecadar fundos para ações de apoio às vítimas de minas terrestres.

Durante a festa, o ‘Revista África’ conversou com os atores da Rede Globo Grazi Massafera e Cauã Reymond, padrinhos do evento. O casal, que esteve pela primeira vez no continente africano, destacou a importância de participar de iniciativas em prol de questões humanitárias e aproveitou para agradecer o carinho recebido do povo angolano.

O programa deste sábado terá também uma entrevista com o secretário executivo do Fundo de Solidariedade Social LWINI, Alfredo Ferreira. O executivo falou sobre a criação da entidade, presidida pela primeira-dama angolana, Ana Paula dos Santos, e detalhou as quatro áreas de atuação da organização: educação, saúde, formação profissional e incentivo ao retorno das vítimas às suas regiões de origem.

A TV Globo Internacional exibe o ‘Revista África’ aos assinantes da Europa, África e Oriente Médio todos os sábados, logo após o ‘Jornal Hoje’.

Comentário do datilógrafo: no Brasil, a Grazi é deslumbrante mas, ao lado das deusas de ébano angolanas, sinceramente, não passaria em nenhum casting se eu fosse o diretor da novela.